sexta-feira, 15 de fevereiro de 2013

Conto de Moacyr Scliar

  A NOITE EM QUE OS HOTÉIS ESTAVAM CHEIOS
                                                                                                                                                                                                 (Moacyr Scliar)
       O casal chegou à cidade tarde da noite.Estavam cansados da viagem; ela, grávida, não se sentia bem. Foram procurar um lugar onde passar a noite. Hotel, hospedaria, qualquer coisa serviria, desde que não fosse muito caro.
        Não seria fácil, como eles logo descobriram. No primeiro hotel o gerente, homem de maus modos, foi logo dizendo que não havia lugar. No segundo, o encarregado da portaria olhou com desconfiança o casal e resolveu pedir documentos. O homem disse que não tinha; na pressa da viagem esquecera os documentos. 
       - E como pretende o senhor conseguir um lugar num hotel, se não tem documentos? - disse o encarregado. - Eu nem sei se o senhor vai pagar a conta ou não!
        O viajante não disse nada. Tomou a esposa pelo braço e seguiu adiante. No terceiro hotel também não havia vaga. No quarto - que era mais uma modesta hospedaria - havia, mas o dono desconfiou do casal e resolveu dizer que o estabelecimento estava lotado. Contudo, para não ficar mal, resolveu dar uma desculpa:
        - O senhor vê, se o governador nos desse incentivos, como dão para os grandes hotéis, eu já teria feito uma reforma aqui. Poderia até receber delegações estrangeiras. Mas até hoje não consegui nada. Se eu conhecesse alguém influente... O senhor não conhece ninguém nas altas esferas?
        O viajante hesitou, depois disse que sim, que talvez conhecesse alguém nas altas esferas.
        - Pois então - disse o dono da hospedaria - fale para esse seu conhecido da minha hospedaria. Assim, na próxima vez que o senhor vier, talvez já possa lhe dar um quarto de primeira classe, com banho e tudo.
        O viajante agradeceu, lamentando apenas que seu problema fosse mais urgente: precisava de um quarto para aquela noite. Foi adiante.
        No hotel seguinte, quase tiveram êxito. O gerente estava esperando um casal de conhecidos artistas, que viajavam incógnitos. Quando os viajantes apareceram, pensou que fossem os hóspedes que aguardava e disse que sim, que o quarto já estava pronto. Ainda fez um elogio:
        - O disfarce está muito bom. Que disfarce? perguntou o viajante. Essas roupas velhas que vocês estão usando, disse o gerente. Isso não é disfarce, disse o homem, são as roupas que nós temos. O gerente aí percebeu o engano:
        - Sinto muito - desculpou-se. - Eu pensei que tinha um quarto vago, mas parece que já foi ocupado.
        O casal foi adiante. No hotel seguinte, também não havia vaga, e o gerente era metido a engraçado. Ali perto havia uma manjedoura, disse, por que não se hospedavam lá? Não seria muito confortável, mas em compensação não pagariam diária. Para surpresa dele, o viajante achou a idéia boa, e até agradeceu. Saíram.
        Não demorou muito, apareceram os três Reis Magos, perguntando por um casal de forasteiros. E foi aí que o gerente começou a achaar que talvez tivesse perdido os hóspedes mais importantes já chegados de Belém de Nazaré.
fonte: http://pedrolusodcarvalho.blogspot.com.br/2012/02/moacyr-scliar-noite-em-que-os-hoteis.html

Conto Fantástico

A Jornada


                        Em 1536, em Sevilha, na Espanha, o jovem Ricardo Mendonza foi desafiado para um duelo por Don Antonio Delibes, depois de uma discussão em uma taverna. Num sítio afastado, os dois dispararam um contra o outro, mas só Mendonza sobreviveu. Ele viveu até a velhice, com fama de valente, e nunca perdeu o orgulho por aquele violento episódio de sua vida. 
                      Renasceu na Inglaterra, em 1680, com o nome de Thomas Redcliff, e teve uma vida dedicada ao mar. O gosto pelas aventuras e o fascínio pela guerra o levaram a se juntar à tripulação do lendário Edward Teach, mais conhecido como Barba Negra. Assim saciou sua sede de violência ao participar de mais de vinte ataques a embarcações, alguns dos quais deixaram o mar vermelho com o sangue das vítimas.
                      Sua encarnação seguinte teve início em 1792, novamente na Espanha. Agora teve como irmão mais velho o próprio homem de quem havia tirado a vida em um duelo, no século XVI. Os dois brigavam muito, desde crianças, mas aquele que havia sido Don Antonio Delibes tornou-se seu maior protetor, e o livrou de muitas enrascadas durante esta vida. Deste modo, Mendonza-Redcliff conseguiu levar uma vida plena e dedicada a sua mulher e filha. Morreu de tuberculose, aos 47 anos de idade.
                      Em 1888 retornava novamente à Terra, no lar de um comerciante em Londres. Desde criança sentia um peso enorme na consciência, sem saber o motivo, já que “nunca havia feito mal a ninguém”, como dizia a si mesmo. Aos dezesseis anos de idade, por se sentir inadequado ao mundo, tira a própria vida com um tiro no ouvido.
                      Renasce em 1970, surdo, no Brasil, com o nome de Marcos Souza. Os mesmos sentimentos de culpa da existência passada o assaltavam, agora intensificados. Porém, ao nascer em meio a uma família profundamente religiosa e com alta instrução acadêmica, sempre recebeu ótima orientação terapêutica desde a infância. Nunca saberia, nesta vida, que seus atuais pais e irmãos eram algumas de suas vítimas afogadas do tempo em que atuou como saqueador dos mares, no século XVII, e que o haviam perdoado e acolhido de bom grado para auxiliar em seu equilíbrio.
                      Decidido a visitar a Espanha - país pelo qual sentia estranha atração - ao completar dezoito anos partiu em um Boeing para realizar seu sonho. Durante o voo sobre o Atlantico, o avião começou a ter alguns solavancos. Antes de cair no mar, no auge do desespero dos passageiros, Marcos teve uma breve visão, onde todos à sua volta estavam vestidos como corsários – eram seus companheiros na tripulação do Barba Negra reunidos naquele avião.
                      A morte daquelas mais de cem pessoas por afogamento foi seguida pela chegada de uma falange de espíritos luminosos que vieram em missão de socorro. Marcos, deixando seu corpo na água, agarrou a mão estendida de Antonio Delibes.
                       -Parabéns por mais esta etapa cumprida – disse o companheiro. E seguiram de volta à sua verdadeira morada, cientes de que ainda teriam que voltar outras vezes à Terra.

Conto Maravilhoso

CINDERELA – A GATA BORRALHEIRA –


Histórias da Carochinha
A GATA BORRALHEIRA
Era uma vez uma bondosa mulher que tinha uma única filha, uma menina linda e meiga, a quem amava muito. Um dia, a mu­lher adoeceu gravemente e, embora ainda fosse jovem, sentiu que não ia durar muito tempo. Assim, chamou a filha para perto de si e, depois de abraçá-la carinhosamente, pe­diu:
— Seja sempre meiga e bondosa para com todos, minha filha, que lá do céu estarei o tempo todo olhando por você!
Mal terminou de dizer essas palavras, a mãe da menina fechou os olhos e morreu. A pobre criança quase morreu também de tanto chorar. A mulher foi enterrada num lugar muito bonito, no quintal da casa e, desde então, a menina passou a ir todos os dias até o túmulo da mãe, onde ficava ajoelhada, re­zando e chorando.
O tempo passou e, com a chegada do in­verno, os dias se tornaram cinzentos, e as ár­vores ficaram secas e tristes. Mas, quando veio a primavera, o jardim da casa voltou a se encher de flores e passarinhos.
Foi então que o pai da menina resolveu se casar de novo, escolhendo para esposa uma viúva, que tinha duas filhas. No entanto, a chegada da madrasta e das filhas naquela casa não trouxe para ela nenhuma alegria, pois as filhas da viúva eram muito invejosas e tinham mau coração. Desde o primeiro dia, trataram a nova irmã com desprezo, fazendo de tudo para aborrecê-la e humilhá-la. Além disso, passaram a tomar, um por um, os me­lhores vestidos que a menina possuía, deixan­do-a apenas com uma roupa velha e um par de tamancos de madeira.
A madrasta e as filhas eram também muito preguiçosas, e a menina era obrigada a trabalhar, fazendo todo o serviço da casa sozinha.  E à noite, quando terminava o trabalho, morta de cansaço, a pobrezinha não tinha sequer uma cama confortável onde pu­desse descansar, e era obrigada a dormir na cozinha, junto às cinzas do fogão. Por causa disso, as irmãs lhe deram o apelido de Gata Borralheira.
A vida de Gata Borralheira era, assim, muito triste, mais triste ainda porque o pai parecia não ver seu sofrimento e nada fazia por ela. O único refúgio da pobre menina era 0 túmulo da mãe, aonde ia sempre que podia.
Um dia, o pai precisou ir até a cidade e perguntou a cada uma das meninas o que gos­taria que ele trouxesse de presente.
—   Eu quero lindos vestidos! — disse uma das filhas da madrasta.
—   Eu quero pérolas e diamantes! — disse a outra.
Gata Borralheira, entretanto, nada pe­diu, e o pai, vendo-a calada, perguntou-lhe se não ia querer nenhum presente.
— Papai — ela respondeu —, quero ape­nas que me traga o primeiro galho de árvore que, no caminho de volta, esbarrar em seu chapéu!

O pai partiu e, na cidade, comprou vesti­dos bonitos e pedras preciosas, conforme as filhas da mulher haviam pedido. Quando já voltava para casa, passou embaixo de uma enorme figueira. Alguns galhos da árvore eram muito baixos e um deles derrubou seu chapéu no chão.
Quando desceu para apanhá-lo, o pai se lembrou do pedido da Gata Borralheira. Por isso, arrancou o galho da árvore e o levou para a filha.
Ao chegar em casa, entregou os presentes a cada uma das meninas, e Gata Borralheira, depois de agradecer-lhe muito, correu até o túmulo da mãe. Plantou ali o ramo da figuei­ra, chorando tanto, que o regou com suas lá­grimas.
Em pouco tempo o ramo começou a brotar e ficar viçoso, transformando-se numa árvore grande e bonita, ao pé da qual a menina se ajoelhava para rezar e chorar suas tristezas. Todas as vezes que isso acontecia, um pas­sarinho branco vinha pousar num galho da figueira, e bastava que Gata Borralheira expressasse algum desejo para que ele lhe trouxesse o que ela estava pedindo. O passa­rinho branco se tornou, assim, o único amigo da menina, que não tinha mais ninguém neste mundo em quem pudesse confiar.
O tempo passou, e, um dia, correu por toda a cidade a notícia de que o rei daria uma grande festa, que duraria três dias. Seriam realizados três grandes bailes, para os quais estavam convidadas todas as moças em ida­de de se casar, porque dentre elas o príncipe escolheria uma para ser sua noiva.
Logo que soube da notícia, Gata Borra-lheira sentiu uma vontade enorme de ir ao baile, mas, quando disse isso às irmãs, as duas começaram a rir e uma delas falou:
—   Com esse vestido sujo e esses taman­cos de madeira, você quer ir ao baile?!
—   E essas mãos grossas?! — disse a ou­tra, morrendo de rir. — Você acha que as mãos delicadas do príncipe foram feitas para segurar as mãos de uma Gata Borralheira?
A pobre menina, humilhada, saiu de perto das duas malvadas para que elas não vissem suas lágrimas.
* * *

Logo chegou o dia do baile, e enquanto as irmãs passavam o tempo todo se arrumando, Gata Borralheira, como sempre, fazia todo o serviço da casa. À tarde, para fazê-la sofrer ainda mais, as duas a obrigaram a passar seus vestidos e a pentear-lhes os cabelos para irem à festa. Quando já estavam quase pron­tas, as maldosas meninas lhe disseram:
— Agora você pode voltar à cozinha. Lá é o lugar certo para uma Gata Borralheira!
Muito magoada, Gata Borralheira foi procurar a madrasta para dizer-lhe que tam­bém queria ir ao baile. Mas a mulher, ao ou­vir o pedido, respondeu:
— Você, Gata Borralheira? Como quer ir ao baile se vive tão suja e empoeirada? Ainda por cima, você não tem nem vestidos nem sapatos adequados!
Gata Borralheira, entretanto, pediu tan­to, insistiu tanto que a madrasta acabou di­zendo:
— Está bem. Mas só vou levá-la ao baile se você cumprir uma tarefa: despejei um prato de lentilhas no meio das cinzas do fo­gão.  Se em duas horas você conseguir tirar as lentilhas das cinzas, separar os grãos es­tragados e colocar os bons de volta no prato, você irá ao baile.
E saiu de perto, tendo a certeza de que dera a Gata Borralheira uma tarefa impossí­vel de se cumprir em tão pouco tempo.
Entretanto, logo que a madrasta saiu, a menina lembrou-se de pedir ajuda ao seu ami­go passarinho. Assim, foi até a figueira e cantou:
— Querida avezinha do céu, ajude-me a escolher: os grãos bons ponha no prato, e os maus pode comer!
O passarinho branco logo veio em seu so­corro. Mas desta vez não veio sozinho. Assim, em um instante a cozinha estava repleta de pássaros de todos os tipos que, trabalhando rapidamente, ajudaram Gata Borralheira a realizar a tarefa, em pouquíssimo tempo. Quando estava tudo pronto, ela agradeceu a seus amigos e esperou que eles saíssem para ir correndo chamar a madrasta e entregar-lhe o prato cheio de lentilhas. Mas a malvada, furiosa ao ver que a menina tinha conseguido realizar o trabalho, disse-lhe:
— Não posso levá-la ao baile, Gata Bor­ralheira!   Você nem dançar sabe!
A menina, no entanto, continuou insistin­do no pedido, e a madrasta, como não queria levá-la, deu-lhe outra tarefa, mais difícil ainda que a anterior: despejou desta vez dois pratos de lentilhas no meio das cinzas, dan­do-lhe apenas uma hora para separar os grãos bons dos estragados. E, certa de que agora seria mesmo impossível que ela reali­zasse o trabalho, saiu da cozinha toda satis­feita.
Mesmo estando triste, Gata Borralheira nao desanimou. Voltou a pedir ajuda a seu amigo passarinho e, junto com ele, entraram pela janela da cozinha duas pombinhas bran­cas, uma rolinha, muitos sabiás, e logo todos os pássaros do céu estavam ali para ajudá-la. Novamente, em pouquíssimo tempo o traba­lho estava terminado, e Gata Borralheira mais uma vez agradeceu a seus amigos e es­perou que todos eles saíssem para chamar a madrasta à cozinha. A mulher, ao ver que não tinha conseguido seu intento, empalideceu de ódio e disse:
— Sabe de uma coisa, sua Gata Borra­lheira?  Você não vai mesmo ao baile!   Só ia nos fazer passar vergonha diante do rei e, além do mais, já é tarde e estamos de
saída!
Com o coração doendo de tristeza, Gata Borralheira sentou-se nas cinzas do fogão e começou a chorar. Assim que todos saíram para o baile, correu para o túmulo da mãe, ajoelhou-se e, contemplando a figueira com os olhos cheios de lágrimas, pediu:
—  Minha avezinha querida,
fa
ça-me mais este bem:
se n
ão for pedir muito,
queria ir ao baile tamb
ém!
Quase que no mesmo instante, o passari­nho branco pousou num ramo da árvore, tra­zendo para a menina um magnífico vestido e um par de sapatinhos muito delicados, todos bordados com ouro e prata.
Gata Borralheira, cheia de alegria, ves­tiu-se rapidamente e foi para o baile. Estava tão linda, tão linda, que assim que entrou no salão todos se viraram para admirá-la. O pró­prio pai e a madrasta com as filhas não pu­deram reconhecê-la, e o príncipe, deslumbra­do com sua beleza, veio diretamente ao seu encontro, dançando com ela a noite inteira, não permitindo que nenhum outro jovem se aproximasse.
Quando chegou a madrugada, Gata Bor­ralheira quis retirar-se da festa. O príncipe insistiu em levá-la para casa, porque queria saber onde morava uma jovem tão encanta­dora e quem eram os seus pais. Como não conseguiu fazê-lo desistir da idéia, a moça foi obrigada a fugir correndo pelas escadarias do palácio. Mas o príncipe, decidido a desco­brir quem era aquela jovem misteriosa, con­tinuou a segui-la pelas ruas e viu quando Borralheira chegou em casa. Correndo pelo jardim, ela já não sabia mais onde se escon­der, e acabou subindo no pombal, na espe­rança de que lá não seria encontrada pelo príncipe.
Assim que o pai de Gata Borralheira che­gou em casa, o príncipe, que tinha ficado ali esperando, contou-lhe o que havia acontecido. O velho pensou imediatamente: "Será que a moça de quem ele fala é Gata Borralheira?". E, curioso, derrubou com seu machado o pombal.
Mas, para decepção dos dois, não havia ninguém lá dentro. É que a menina, muito es­perta, tinha saído dali sem que o príncipe a visse, e, rapidamente, tinha devolvido ao pas­sarinho a roupa e os sapatos com que tinha ido ao baile. Assim, quando a madrasta e as filhas passaram pela cozinha, encontraram Gata Borralheira dormindo profundamente no meio das cinzas, maltrapilha como de cos­tume.
Na noite seguinte, mais uma vez a ma­drasta recusou-se a levá-la ao baile. Gata Borralheira esperou pacientemente que todos saíssem e foi ajoelhar-se diante do túmulo da mãe para pedir:

— Minha avezinha querida,
fa
ça-me mais este bem:
 se n
ão for pedir muito,
queria ir ao baile tamb
ém!
Novamente o passarinho branco veio em seu auxílio e atirou-lhe um vestido e um par de sapatinhos mais ricos e bonitos que os da noite anterior. E, como na outra vez, quan­do Borralheira chegou ao baile, sua impres­sionante beleza provocou murmúrios por todo o salão. O príncipe, que já a esperava ansiosamente, assim que a viu, correu ao seu encontro, dançando com ela durante toda a noite.
De madrugada, mais uma vez Gata Bor­ralheira precisou fugir para que o príncipe não a acompanhasse. Sendo novamente per­seguida até o jardim de casa, a menina se escondeu de novo, desta vez numa pereira que havia no quintal.
Mas o príncipe, cada vez mais curioso e encantado com aquela jovem misteriosa, vol­tou a esperar que o dono da casa chegasse para contar-lhe o ocorrido.  O velho, intrigado, pensou outra vez: "Mas será Gata Borralheira a moça de quem ele fala?". E, toman-do de novo seu machado, derrubou imediata-mente a árvore, não encontrando ninguém ali.
Quando a madrasta e as filhas passaram pela cozinha, lá estava Gata Borralheira, com seu velho vestido, encolhida e dormindo profundamente no meio das cinzas.
*     *     *
Na terceira noite, mais uma vez Gata Borralheira pediu e mais uma vez o passa­rinho branco veio em seu auxilio, trazendo–lhe agora um vestido ainda mais bonito e um par de sapatinhos delicadíssimos, bordados em ouro puro.
Ao entrar no salão do baile, todos, inclu­sive o pai, a madrasta e as filhas, ficaram boquiabertos com sua deslumbrante beleza, e de toda parte vinham murmúrios de admi­ração.
O príncipe, olhando-a com amor, tomou suas mãos, convidando-a para dançar. E de novo passou a noite inteira ao seu lado, não permitindo que mais ninguém se aproxi­masse.
Mas nessa madrugada, quando Gata Bor­ralheira fugiu, o príncipe não teve pressa em segui-la, porque, decidido a descobrir quem era a jovem por quem estava apaixonado, tinha mandado os criados do palácio espalha­rem piche por todas as escadarias. Assim, na pressa de fugir, Gata Borralheira acabou perdendo o sapatinho do pé esquerdo, que ficou preso no piche.
O príncipe recolheu o delicado sapatinho e, no dia seguinte, quando o rei lhe perguntou se havia escolhido sua esposa, respondeu:
— Sim, meu pai. Já fiz minha escolha: eu me casarei com a moça em cujo pé servir este sapatinho.
No mesmo dia o príncipe em pessoa saiu pela cidade percorrendo todas as casas onde houvesse moças em idade de se casar, expe­rimentando em todas elas o rico sapatinho. Mas nenhuma moça do reino parecia ter um pezinho tão pequeno a ponto de usar um cal­çado tão delicado.
Depois de visitar muitas casas, o príncipe acabou chegando à casa de Gata Borralheira. Foi recebido pela madrasta que, certa de que a escolhida seria uma de suas filhas, pediu-lhe que esperasse um pouco e levou o sapatinho até o quarto da moça mais velha, para que ela o calçasse.
Por mais que a moça forçasse, entretan­to, não havia jeito de fazer com que o sapato lhe servisse, pois um dedo de seu pé era gran­de demais. Quando estava cansada de ten­tar e já ia desistir, a mãe, trazendo um enor­me facão da cozinha, lhe disse:
— Se o sapato lhe servir, você se tornará rainha e não precisará andar muito. Por isso, acho melhor cortar esse dedo tão grande!
A ambiciosa moça aceitou o conselho e, logo depois, mal conseguindo disfarçar a dor, apresentou-se diante do príncipe como sendo a verdadeira noiva.
Mesmo decepcionado, ele a colocou sobre o cavalo e os dois partiram, rumo ao palácio real.
Entretanto, quando passaram diante do túmulo da mãe de Gata Borralheira, duas pombinhas brancas que estavam pousadas nos galhos da figueira começaram a cantar:
—  A verdadeira noiva esta não é!
Se o pr
íncipe olhar para o sapato,
ver
á que há sangue no pé!
Ao ouvir isso, o príncipe olhou para o pé da moça e, vendo o sangue que escorria do ferimento, descobriu que havia sido engana­do. Levou-a imediatamente de volta para a mãe, que se desculpou dizendo:
— Não fique zangado, meu príncipe! Deve ter havido algum engano. Na certa o sapato servirá em minha filha mais nova, que está no quarto.
Enquanto o príncipe esperava, a madras­ta levou o sapatinho ao quarto da filha mais nova. Mas esta também tinha um pé tão gran­de que não havia como fazer com que o calça­do lhe servisse, a não ser cortando-lhe um pedaço do calcanhar.
E foi o que mãe e filha fizeram, pensan­do que, como a moça seria brevemente rai­nha, não precisaria mais andar muito, e um pedaço do pé não lhe faria falta. Lá se foi outra vez o príncipe, levando a falsa noiva sobre seu cavalo. Mas, mais uma vez, ao passarem pelo túmulo da mãe de Gata Borralheira, as pombinhas brancas começaram a cantar:
—   A verdadeira noiva esta não é!
Se o pr
íncipe olhar para o sapato,
ver
á que há sangue no pé!
O príncipe olhou então para o sapato da moça e, vendo o sangue que escorria do feri­mento, descobriu que havia sido enganado outra vez. Levou-a imediatamente de volta e, muito zangado, perguntou à madrasta se não havia mais nenhuma jovem na casa. A mu­lher respondeu que não, mas como ele insis­tisse, acabou confessando:
—   Existe aqui outra jovem, mas ela é tão feia e anda tão suja e maltrapilha que certa­mente não é a pessoa que Vossa Majestade procura!
—   Não faz mal! — respondeu o príncipe. — Tragam-na assim mesmo!
Como não podia desobedecer-lhe, a madrasta mandou chamar Gata Borralheira, que, vestida com suas roupas velhas, apare­ceu logo em seguida. Com a maior naturali­dade, Borralheira tirou o pesado tamanco que usava e calçou delicadamente o sapatinho, em que seu pé entrou sem o menor esforço.
Muito feliz, o príncipe, que já a havia re­conhecido, colocou Borralheira sobre seu ca­valo e os dois partiram, deixando a madrasta e as filhas loucas de ódio e inveja.
Ao passarem diante do túmulo da mãe da menina, lá estavam outra vez as duas pombinhas brancas, que, alegremente, começa­ram a cantar:
— Agora está certo,
pois, de fato, esta
é a noiva verdadeira,
e n
ão há sangue no sapato!
Em seguida, as duas pombinhas voaram ao redor de Gata Borralheira e do príncipe, indo depois pousar delicadamente nos ombros da moça, acompanhando-a até o palácio.
Gata Borralheira e o príncipe se casaram m meio às festas mais bonitas que o reino já havia tido.
No dia do casamento, as duas irmãs, fingindo-se arrependidas, pediram à menina que lhes deixasse acompanhá-la e a seu noivo no Cortejo nupcial. Gata Borralheira permitiu, mas, na saída da igreja, o coração das malva­das ia cheio de pensamentos maus, de ódio e inveja. Por isso, as duas pombinhas brancas voaram na direção das invejosas e, com o biquinho, furaram-lhes os dois olhos, deixan­do-as cegas pelo resto da vida, como castigo por sua maldade.
Quanto a Gata Borralheira, viveu feliz com o príncipe por muitos e muitos anos.

Mitologia Grega

 Zeus
 
 
Zeus deus dos trovões, senhor do Olimpo, era filho de Cronos e Réia. Cronos tinha o hábito de  devorar seus próprios filhos para que não tomassem seu lugar no trono. Até que Zeus nasceu e sua mãe Réia já cansada de tanto sangue e sofrimento deu a Cronos uma pedra embrulhada no lugar de Zeus, salvando sua vida. Réia decidiu que Zeus seria o ultimo filho e encerraria o reinado de sangue e sofrimento e tomaria o trono do pai.
Zeus
Assim que Cronos descobriu que tinha engolido uma pedra ao invés do filho saiu a procura de Zeus, mas não o encontrou. Zeus foi criado no bosque de Creta e foi alimentado com mel e leite de cabra. E assim quando cresceu foi a caminho do pai para combatê-lo, eles viraram grandes inimigos, Zeus obrigou seu pai a engolir uma bebida mágica, que restituiu todos os filhos que no passado tinha devorado. Foi então que Zeus conheceu seus quatro irmãos: Deméter, Poseidon, Héstia e Hades, faltou apenas a Hera que como Zeus foi poupada e não estava ali. Zeus ainda liberou ciclopes que deu a ele o Raio. Então após dez anos, que foi o tempo que durou a guerra, Zeus subiu ao Olimpo junto com seus irmãos Poseidon e Hades que o ajudaram a destruir Cronos, e então comandaram o Céu, a Terra e os demais deuses.
Zeus tinha o poder dos fenômenos atmosféricos e fazia relâmpagos e trovões e com sua mão direita lançava a chuva, podia usar sua força como destruidora, mas também mandava chuvas para as plantações.
Zeus casou-se três vezes, sua primeira esposa foi Métis a deusa da prudência e com ela teve sua filha Atena. Sua segunda esposa foi Têmis a deusa da justiça. E sua terceira esposa foi sua irmã Hera e com ela teve vários herdeiros, mas o único que foi filho legítimo de Hera e Zeus foi Ares, que era o Deus da guerra. Heras era muito ciumenta e agressiva já que Zeus desonrava sua vida com Heras, tinha muitas amantes, e que também acabou tendo muitos filhos fora de seu casamento. Zeus usava seu poder de sedução e até usava as mais belas metamorfoses para conquistar as mulheres. As mais conhecidas são: o Cisne de Leda e o Touro da Europa.
Zeus é o deus que dá ao homem o caminho da razão e também ensina que o verdadeiro conhecimento é obtido apenas a partir da dor.

Referências:
http://www.mundodosfilosofos.com.br/zeus.htm
http://plantaomagia.blogspot.com/2009/05/historia-de-zeus.html
http://allofthemitology.blogspot.com/2008/03/zeus-deus-dos-troves-senhor-do-monte.html

Conto Fantástico

“Apelo”: 
                                                                                                                             Dalton Trevisan

Amanhã faz um mês que a Senhora está longe de casa. Primeiros dias, para dizer a verdade, não senti falta, bom chegar tarde, esquecido na conversa de esquina. Não foi ausência por uma semana: o batom ainda no lenço, o prato na mesa por engano, a imagem de relance no espelho.

Com os dias, Senhora, o leite primeira vez coalhou. A notícia de sua perda veio aos poucos: a pilha de jornais ali no chão, ninguém os guardou debaixo da escada. Toda a casa era um corredor deserto, até o canário ficou mudo. Não dar parte de fraco, ah, Senhora, fui beber com os amigos. Uma hora da noite eles se iam. Ficava só, sem o perdão de sua presença, última luz na varanda, a todas as aflições do dia.

Sentia falta da pequena briga pelo sal no tomate — meu jeito de querer bem. Acaso é saudade, Senhora? Às suas violetas, na janela, não lhes poupei água e elas murcham. Não tenho botão na camisa. Calço a meia furada. Que fim levou o saca-rolha? Nenhum de nós sabe, sem a Senhora, conversar com os outros: bocas raivosas mastigando. Venha para casa, Senhora, por favor.



Fonte: http://www.brasilescola.com/literatura/o-conto-fantastico.htm

Crônica.

O lixo
Luís Fernando Veríssimo


Encontram-se na área de serviço. Cada um com seu pacote de lixo. É a primeira vez que se falam.
- Bom dia...
- Bom dia.
- A senhora é do 610.
- E o senhor do 612
- É.
- Eu ainda não lhe conhecia pessoalmente...
- Pois é...
- Desculpe a minha indiscrição, mas tenho visto o seu lixo...
- O meu quê?
- O seu lixo.
- Ah...
- Reparei que nunca é muito. Sua família deve ser pequena...
- Na verdade sou só eu.
- Mmmm. Notei também que o senhor usa muito comida em lata.
- É que eu tenho que fazer minha própria comida. E como não sei cozinhar...
- Entendo.
- A senhora também...
- Me chame de você.
- Você também perdoe a minha indiscrição, mas tenho visto alguns restos de comida em seu lixo. Champignons, coisas assim...
- É que eu gosto muito de cozinhar. Fazer pratos diferentes. Mas, como moro sozinha, às vezes sobra...
- A senhora... Você não tem família?
- Tenho, mas não aqui.
- No Espírito Santo.
- Como é que você sabe?
- Vejo uns envelopes no seu lixo. Do Espírito Santo.
- É. Mamãe escreve todas as semanas.
- Ela é professora?
- Isso é incrível! Como foi que você adivinhou?
- Pela letra no envelope. Achei que era letra de professora.
- O senhor não recebe muitas cartas. A julgar pelo seu lixo.
- Pois é...
- No outro dia tin ha um envelope de telegrama amassado.
- É.
- Más notícias?
- Meu pai. Morreu.
- Sinto muito.
- Ele já estava bem velhinho. Lá no Sul. Há tempos não nos víamos.
- Foi por isso que você recomeçou a fumar?
- Como é que você sabe?
- De um dia para o outro começaram a aparecer carteiras de cigarro amassadas no seu lixo.
- É verdade. Mas consegui parar outra vez.
- Eu, graças a Deus, nunca fumei.
- Eu sei. Mas tenho visto uns vidrinhos de comprimido no seu lixo...
- Tranqüilizantes. Foi uma fase. Já passou.
- Você brigou com o namorado, certo?
- Isso você também descobriu no lixo?
- Primeiro o buquê de flores, com o cartãozinho, jogado fora. Depois, muito lenço de papel.
- É, chorei bastante, mas já passou.
- Mas hoje ainda tem uns lencinhos...
- É que eu estou com um pouco de coriza.
- Ah.
- Vejo muita revista de palavras cruzadas no seu lixo.
- É. Sim. Bem. Eu fico muito em casa. Não saio muito. Sabe como é.
- Namorada?
- Não.
- Mas há uns dias tinha uma fotografia de mulher no seu lixo. Até bonitinha.
- Eu estava limpando umas gavetas. Coisa antiga.
- Você não rasgou a fotografia. Isso significa que, no fundo, você quer que ela volte.
- Você já está analisando o meu lixo!
- Não posso negar que o seu lixo me interessou.
- Engraçado. Quando examinei o seu lixo, decidi que gostaria de conhecê-la. Acho que foi a poesia.
- Não! Você viu meus poemas?
- Vi e gostei muito.
- Mas são muito ruins!
- Se você achasse eles ruins mesmo, teria rasgado. Eles só estavam dobrados.
- Se eu soubesse que você ia ler...
- Só não fiquei com eles porque, afinal, estaria roubando. Se bem que, não sei: o lixo da pessoa ainda é propriedade dela?
- Acho que não. Lixo é domínio público.
- Você tem razão. Através do lixo, o particular se torna público. O que sobra da nossa vida privada se integra com a sobra dos outros. O lixo é comunitário. É a nossa parte mais social. Será isso?
- Bom, aí você já está indo fundo demais no lixo. Acho que...
- Ontem, no seu lixo...
- O quê?
- Me enganei, ou eram cascas de camarão?
- Acertou. Comprei uns camarões graúdos e descasquei.
- Eu adoro camarão.
- Descasquei, mas ainda não comi. Quem sabe a gente pode...
- Jantar juntos?
- É.
- Não quero dar trabalho.
- Trabalho nenhum.
- Vai sujar a sua cozinha?
- Nada. Num instante se limpa tudo e põe os restos fora.
- No seu lixo ou no meu?»

Fonte: http://7leitores.blogspot.com/2008/07/o-lixo-luis-fernando-verssimo.html