sexta-feira, 15 de fevereiro de 2013

Poema

Poemas de Mario de Andrade


Quando eu morrer quero ficar
Quando eu morrer quero ficar,
Não contem aos meus inimigos,
Sepultado em minha cidade,
Saudade.

Meus pés enterrem na rua Aurora,
No Paissandu deixem meu sexo,
Na Lopes Chaves a cabeça
Esqueçam.

No Pátio do Colégio afundem
O meu coração paulistano:
Um coração vivo e um defunto
Bem juntos.

Escondam no Correio o ouvido
Direito, o esquerdo nos Telégrafos,
Quero saber da vida alheia,
Sereia.

O nariz guardem nos rosais,
A língua no alto do Ipiranga
Para cantar a liberdade.
Saudade...

Os olhos lá no Jaraguá
Assistirão ao que há de vir,
O joelho na Universidade,
Saudade...

As mãos atirem por aí,
Que desvivam como viveram,
As tripas atirem pro Diabo,
Que o espírito será de Deus.
Adeus.
Não exijas mais nada.
não desejo
também mais nada,
só te olhar,enquanto
A realidade é simples e isto apenas.
Mário de Andrade
     
     
     
Poemas da amiga
VII

Gosto de estar a teu lado,
Sem brilho.
Tua presença é uma carne de peixe,
De resistência mansa e de um branco
Ecoando azuis profundos.

Eu tenho liberdade em ti.
Anoiteço feito um bairro,
Sem brilho algum.

Estamos no interior duma asa
Que fechou.

De Poemas da Amiga
Mário de Andrade
     
     
     
Eu sou um escritor difícil
Que a muita gente enquizila,
Porém essa culpa é fácil
De se acabar duma vez:
É só tirar a cortina
Que entra luz nesta escurez.
Mário de Andrade
     
     
     
Será que a liberdade é uma bobagem?...
Será que o direito é uma bobagem?...

A vida humana é alguma coisa a mais que ciências,artes e profissoes.
E é nessa vida que a liberdade tem um sentido,e o direito dos homens.
A liberdade não é um prêmio,é uma sançao.Que há de vir .
Mário de Andrade
     
     
     
Escrevo sem pensar, tudo o que o meu inconsciente grita. Penso depois: não só para corrigir, mas para justificar o que escrevi.
Mário de Andrade


    O VALIOSO TEMPO DOS MADUROS

    Contei meus anos e descobri que terei menos tempo para viver daqui para a frente do que já vivi até agora.

    Tenho muito mais passado do que futuro.

    Sinto-me como aquele menino que recebeu uma bacia de cerejas.

    As primeiras, ele chupou displicente, mas percebendo que faltam poucas, rói o caroço.

    Já não tenho tempo para lidar com mediocridades.

    Não quero estar em reuniões onde desfilam egos inflamados.
    Inquieto-me com invejosos tentando destruir quem eles admiram, cobiçando seus lugares, talentos e sorte.

    Já não tenho tempo para conversas intermináveis, para discutir assuntos inúteis sobre vidas alheias que nem fazem parte da minha.

    Já não tenho tempo para administrar melindres de pessoas, que apesar da idade cronológica, são imaturos.

    Detesto fazer acareação de desafectos que brigaram pelo majestoso cargo de secretário-geral do coral.

    'As pessoas não debatem conteúdos, apenas os rótulos'.
    Meu tempo tornou-se escasso para debater rótulos, quero a essência, minha alma tem pressa...

    Sem muitas cerejas na bacia, quero viver ao lado de gente humana, muito humana; que sabe rir de seus tropeços, não se encanta comtriunfos, não se considera eleita antes da hora, não foge de sua mortalidade,

    Caminhar perto de coisas e pessoas de verdade,

    O essencial faz a vida valer a pena.

    E para mim, basta o essencial!
    Mario de Andrade (1893 - 1945)

    Poemas

    Marieta

                                                                                                                                          Castro Alves

    Como o gênio da noite, que desata
    o véu de rendas sobre a espada nua,
    ela solta os cabelos... bate a lua
    nas alvas dobras de um lençol de prata.

    O seio virginal que a mão recata,
    embalde o prende a mão... cresce, flutua...
    Sonha a moça ao relento... Além na rua
    preludia um violão na serenata.

    Furtivos passos morrem no lajedo...
    Resvala a escada do balcão discreta...
    matam lábios os beijos em segredo...

    Afoga-me os suspiros, Marieta!
    Oh surpresa! Oh! Palor! Oh! Pranto! Oh! Medo!
    Ai! Noites de Romeu e Julieta!...

    Poema

    Amar e Ser Amado

    Amar e ser amado! Com que anelo
    Com quanto ardor este adorado sonho
    Acalentei em meu delírio ardente
    Por essas doces noites de desvelo!
    Ser amado por ti, o teu alento
    A bafejar-me a abrasadora frente!
    Em teus olhos mirar meu pensamento,
    Sentir em mim tu’alma, ter só vida
    P’ra tão puro e celeste sentimento
    Ver nossas vidas quais dois mansos rios,
    Juntos, juntos perderem-se no oceano,
    Beijar teus labios em delírio insano
    Nossas almas unidas, nosso alento,
    Confundido também, amante, amado
    Como um anjo feliz... que pensamento!?
    Castro Alves

    Poema

    AS DUAS FLORES

    São duas flores unidas
    São duas rosas nascidas
    Talvez do mesmo arrebol,
    Vivendo,no mesmo galho,
    Da mesma gota de orvalho,
    Do mesmo raio de sol.

    Unidas, bem como as penas
    das duas asas pequenas
    De um passarinho do céu...
    Como um casal de rolinhas,
    Como a tribo de andorinhas
    Da tarde no frouxo véu.

    Unidas, bem como os prantos,
    Que em parelha descem tantos
    Das profundezas do olhar...
    Como o suspiro e o desgosto,
    Como as covinhas do rosto,
    Como as estrelas do mar.

    Unidas... Ai quem pudera
    Numa eterna primavera
    Viver, qual vive esta flor.
    Juntar as rosas da vida
    Na rama verde e florida,
    Na verde rama do amor!
    Castro Alves

    Poemas

    Poemas de Mario de Andrade


    Quando eu morrer quero ficar
    Quando eu morrer quero ficar,
    Não contem aos meus inimigos,
    Sepultado em minha cidade,
    Saudade.

    Meus pés enterrem na rua Aurora,
    No Paissandu deixem meu sexo,
    Na Lopes Chaves a cabeça
    Esqueçam.

    No Pátio do Colégio afundem
    O meu coração paulistano:
    Um coração vivo e um defunto
    Bem juntos.

    Escondam no Correio o ouvido
    Direito, o esquerdo nos Telégrafos,
    Quero saber da vida alheia,
    Sereia.

    O nariz guardem nos rosais,
    A língua no alto do Ipiranga
    Para cantar a liberdade.
    Saudade...

    Os olhos lá no Jaraguá
    Assistirão ao que há de vir,
    O joelho na Universidade,
    Saudade...

    As mãos atirem por aí,
    Que desvivam como viveram,
    As tripas atirem pro Diabo,
    Que o espírito será de Deus.
    Adeus.
    Não exijas mais nada.
    não desejo
    também mais nada,
    só te olhar,enquanto
    A realidade é simples e isto apenas.
    Mário de Andrade
     
     
     
    Poemas da amiga
    VII


    Gosto de estar a teu lado,
    Sem brilho.
    Tua presença é uma carne de peixe,
    De resistência mansa e de um branco
    Ecoando azuis profundos.

    Eu tenho liberdade em ti.
    Anoiteço feito um bairro,
    Sem brilho algum.

    Estamos no interior duma asa
    Que fechou.



    Eu sou um escritor difícil
    Que a muita gente enquizila,
    Porém essa culpa é fácil
    De se acabar duma vez:
    É só tirar a cortina
    Que entra luz nesta escurez.
    Mário de Andrade
     
     
     
     
    Será que a liberdade é uma bobagem?...
    Será que o direito é uma bobagem?...
    A vida humana é alguma coisa a mais que ciências,artes e profissoes.
    E é nessa vida que a liberdade tem um sentido,e o direito dos homens.
    A liberdade não é um prêmio,é uma sançao.Que há de vir .
    Mário de Andrade
     
     
     
    Escrevo sem pensar, tudo o que o meu inconsciente grita. Penso depois: não só para corrigir, mas para justificar o que escrevi.
    Mário de Andrade
     
     
     
     
     
     
    O VALIOSO TEMPO DOS MADUROS

    Contei meus anos e descobri que terei menos tempo para viver daqui para a frente do que já vivi até agora.

    Tenho muito mais passado do que futuro.

    Sinto-me como aquele menino que recebeu uma bacia de cerejas.

    As primeiras, ele chupou displicente, mas percebendo que faltam poucas, rói o caroço.

    Já não tenho tempo para lidar com mediocridades.

    Não quero estar em reuniões onde desfilam egos inflamados.
    Inquieto-me com invejosos tentando destruir quem eles admiram, cobiçando seus lugares, talentos e sorte.

    Já não tenho tempo para conversas intermináveis, para discutir assuntos inúteis sobre vidas alheias que nem fazem parte da minha.

    Já não tenho tempo para administrar melindres de pessoas, que apesar da idade cronológica, são imaturos.

    Detesto fazer acareação de desafectos que brigaram pelo majestoso cargo de secretário-geral do coral.

    'As pessoas não debatem conteúdos, apenas os rótulos'.
    Meu tempo tornou-se escasso para debater rótulos, quero a essência, minha alma tem pressa...

    Sem muitas cerejas na bacia, quero viver ao lado de gente humana, muito humana; que sabe rir de seus tropeços, não se encanta comtriunfos, não se considera eleita antes da hora, não foge de sua mortalidade,

    Caminhar perto de coisas e pessoas de verdade,

    O essencial faz a vida valer a pena.

    E para mim, basta o essencial!
    Mario de Andrade (1893 - 1945)

    Poema

    A Um Poeta

    Olavo Bilac

    Longe do estéril turbilhão da rua,
    Beneditino escreve! No aconchego
    Do claustro, na paciência e no sossego,
    Trabalha e teima, e lima , e sofre, e sua!

     Mas que na forma se disfarce o emprego
    Do esforço: e trama viva se construa
    De tal modo, que a imagem fique nua
    Rica mas sóbria, como um templo grego

     Não se mostre na fábrica o suplicio
    Do mestre. E natural, o efeito agrade
    Sem lembrar os andaimes do edifício:

    Porque a Beleza, gêmea da Verdade
    Arte pura, inimiga do artifício,
    É a força e a graça na simplicidade.

    Poema

    QUE BICHO MORDEU
     Léo Cunha
     

    QUE BICHO MORDEU A LÍNGUA 
    DO SAPATO DO MANÉ?

    JÁ SEI, FOI O BICHO-DE-PÉ.

    QUE ABICHO MORDEU O SONHO 
    RECHEADO DO SIMÃO?

    VAI VER FOI O BICHO-PAPÃO

    DQUE BICHO MORDEU INTEIRO
    AQUELE TIGRE DE BENGALA?

    FOI O BICHO CARPINTEIRO.

    QUE BICHO MORDEU A PONTA 
    DA CANETA DA PATRÍCIA?

    O DANADO DO BICHO PREGUÇA.

    QUE BICHO MORDEU DEPRESSA
    A BOINA DOS SETE ANÕES?

    UM BICHO DE SETE CABEÇAS.

    QUE BICHO MORDEU A MANGA
    DA CAMISA DO MURILO?

    FOI AQUELE BICHO-GRILO.

    QUE BICHO MORDEU O RESTO
    DA CORAGEM DO NONATO?

    COITADO, FOI O BICHO DO MATO.

    QUE BICHO MORDEU O DEDO
    DE PROSA DO POETA?

    O BICHO-HOMEM , NA CERTA.